O Guia Da Luz

Manuel Blanco Romasanta nasceu em Novembro de 1819 em Requiero, um pequeno povoado do vale de Alhariz, a meio caminho entre a cidade de  Ourense  e a fronteira de Portugal.

Chegou a exercer os ofícios de mascate  e trabalhador diarista.  Tinha um  dom peculiar para a orientação, conhecendo muito bem as terras lindeiras do Vale de Alhariz, além das  sendas e caminhos de Leão, Astúrias, Cantábria e Portugal.  Rosamanta explorava todo este conhecimento a  bem de seu ofício.

Romasanta media 1,37 e possuía uma agradável aparência que, em princípio, não causava medo aos seus vizinhos.   Além disso, era muito inteligente. Sabia ler e escrever e tinha um cavalo, isto numa época em que reinava o analfabetismo e em que possuir o citado  animal era como, nos dias de hoje, ter  um carro de   alto poder aquisitivo

Dava-se muito bem com as mulheres;   digamos que “entrava pela cozinha”, ajudando a trazer cântaro de água ou realizando vários trabalhos domésticos que as mulheres reconheciam com agrados para o galã  Romasanta.  De tanto   acompanhar-se  de mulheres, fez com que os homens de seu povoado o vissem como um afeminado, coisa que o  beneficiava em suas “outras tarefas”

Em 1843, Romasanta cometeu o seu primeiro homicídio.  Sua vítima foi o guarda civil Vicente Fernández. Devido ao crime, acabou sendo  condenado a dez anos na cadeia, da qual, posteriormente, fugiu.

Romasanta praticava a antopofagia: matava suas vítimas e as comia em seguida.  Seu “modus operandi” era, praticamente, o mesmo: enganava suas vítimas dizendo que as levaria a uma casa de gente rica de Santander para trabalharem em tarefas domésticas.  Dizia que havia falado com os amos e que  as vítimas se sentiriam melhor em tais lugares. Posteriormente, quando chegavam a um bosque, as matava, desnudava e roubava-lhes tudo de valor, inclusive as roupas, que logo depois vendia. Mais tarde, voltava ao povoado e mentia aos familiares das vítimas, dizendo que tudo correra a contento.

As primeiras vítimas foram assassinadas  em 1846: Manuela Blanco e sua filha Petra, de 47 e 6 anos, respectivamente.  Viviam elas em Rebordechao, um povoado bem distante de Alhariz. Nesta época, Manuela, que conhecia Romasanta e o tinha  em boa estima, passava momentos difíceis. Havia-se divorciado do marido, Pascual Marrero.  Manuela desejava esquecer,  passar uma borracha em seu passado.  Romasanta a consolou e lhe deu apoio nestes rudes momentos.  Certo dia, Romasanta apareceu com a solução.  Disse-lhe  que um religioso  de muito dinheiro, em Santander, procurava uma governanta para a casa, onde  ela e sua filha poderiam trabalhar e viver melhor. Manuela não pensou duas vezes: vendeu as suas propriedades, despediu-se de suas irmãs e com Petra e Romasanta pôs-se a caminho da Cantábria. Semanas depois, o vendedor ambulante retornou, contando às três irmãs de Manuela que  tudo havia saído bem e que conhecera  outro sacerdote, bem aquinhoado,  que necessitava de uma criada.

Benita, de 31 anos e irmã mais nova de Manuela, foi a segunda  a  ser enganada. Em dois dias, partiu com seu filho Francisco, de 10 anos. Mesmo caminho, mesmo guia, mesmo fim.

Josefa, de 43 anos, e  Antónia Rua com suas filhas menores Peregrina e Maria, seguiram-lhes neste caminho mortal.  Após estas vítimas, as pessoas, com o tempo, começaram a questionar sobre o paradeiro dos familiares. Depois de tanto tempo, não se sabia absolutamente nada sobre eles.  As famílias inquiriam-no e Romasanta chegou a responder algo como “estão felizes; sempre que os vejo me agradecem por tê-los levado a Santander; bons patrões, boa comida e até bom tempo. O salitre do mar é sempre melhor que estas húmidas montanhas. Disseram que logo escreverão”. Romasanta tinha a sorte de que, naquelas épocas, grassava o analfabetismo, de molde que ler e escrever custava dinheiro. Assim, era sempre custoso escrever à família.

Apesar disto, a coisa se complicou e  Romasanta teve que falsificar, ele mesmo,  as cartas para as famílias de suas vítimas, contando-lhes que “tudo lhes ia maravilhosamente graças a Romasanta”.

Mas a sorte não durou eternamente para Romasanta.  Seu erro foi vender a roupa das vítimas, que, àquela época, no interior da Espanha, eram  um bem bastante valioso. Um dia, dois irmãos das vítimas de Romasanta defrontaram-se com  uma mulher a  trajar as roupas que deviam ser de sua irmã. Quando estes homens perguntaram à mulher sobre as vestes que trazia, ela, ignorantemente, dizia que Romasanto lhes havia vendido a um bom preço. Aos poucos, os irmãos viram mais outras pessoas com objectos que a irmã usava, e,  neste momento e segurança, formularam denúncia  à Guarda Civil.

O bufarinheiro Manuel Blanco Romasanta, ciente do facto, desapareceu.

Romasanta foi detido, por acaso, em 2 de julho de 1852,  no distrito   de Nombela, Toledo. Dois confrades  galegos avisaram ao prefeito que Romasanta era um fugitivo procurado pela Guarda Civil na Galiza. Romansanta pretendia esconder-se ali até que as coisas esfriassem, mas o tiro saiu pela culatra. Naquela época, eram-lhe atribuídas nove vítimas, a maioria delas  mulheres e crianças. Portanto, o caso do lobisomem galego era de máxima prioridade.

“Fui vítima de uma maldição familiar que me transformou em homem-lobo […]  A primeira vez em que me transformei foi na montanha de Couso.  Encontrei-me com dois  lobos de aparência feroz.  Imediatamente, fui ao chão, tive convulsões, revolvi-me violenta e descontroladamente  por três vezes, e,  em poucos segundos,  já era também um homem-lobo.  Estive cinco dias com os outros dois, rondando astuciosamente com eles,  até que voltei a recuperar o meu corpo”. O juiz de instrução, Quintín Mosquera,  ficou atónito, enquanto o escrivão tomava nota. “Os outros dois lobos que vinham comigo, que eu também acreditava que fossem  lobos,  voltaram à forma humana. Eram dois valencianos. Um se chamava António e o outro, Genaro; e também sofriam de  uma maldição como a minha.” O magistrado, o escrivão, os guardas-civis e o advogado do acusado, Jacinto Paz Rivero, olharam-se perplexos. “Durante muito tempo saí com António e Dom Genaro. Atacamos e comemos várias pessoas por quem tínhamos fome”.

Em seguida, o juiz perguntou-lhe se guardava alguma lembrança destes actos.

“Sim, todos.  Mas o instinto animal mandava em mim a partir do momento em que me transformava em lobo.  E assim eu sentia o instinto e a fome de carne humana. Quando voltava a ser homem, sentia certo remorso, mas nada podia fazer.”

O juiz de instrução ordenou à Guarda Civil o traslado do acusado aos lugares dos fatos para a reconstituição e para fixar a veracidade das palavras de Romasanta.

Examinou-se a serra de San Lamed e ali Romasanta explicou como havia matado Manuela, Benita e Antónia, com seus respectivos filhos.

O juiz que conduzia o processo, como não poderia ser diferente, ordenou que se fizesse um estudo da personalidade do acusado. Precisava saber se Romasanta era caso para a  Medicina psiquiátrica ou para a morte por garrote vil.

Seis médicos (4 clínicos e 2 cirurgiões) estudaram o acusado. A conclusão dos médicos foi contundente e  estes deixaram claro que Romasanta não era idiota, louco, mono-maníaco ou imbecil… que se fora menos esperto,  não seria tão cruel; e que sabia o que era o bom, o justo e o honesto. Chegaram a dizer que era um homem mentalmente são, e que espezinhava do  coração  a sensibilidade,  e   os bons sentimentos da humanidade.  Tudo isso fundado nos conhecimentos psiquiátricos da época – o senso comum. Estudos posteriores,  baseados na personalidade de Romasanta,  concluíram que era ele um esquizofrénico-paranóico, afectado por um delírio de transformação em que sub-jazeria um sadismo zoofílico. Isto é: Romasanta padecia de licantropia.

Duas mil páginas preenchem  o sumário-crime  que consta do arquivo histórico do Reino da Galiza. Quando do processo de Romasanta, este se fez nacionalmente conhecido, em especial na Galiza. Os jornais ocuparam as suas primeiras páginas com a informação do julgamento.  Romasanta foi processado aos 42 anos (1852).

Em juízo, Manuel Blanco Romasanta chegou a declarar o seguinte:

“Cheguei a manter a forma de lobo até oito dias seguidos, embora  normalmente não passasse mais de dois ou quatro dias transformado.  António, todavia, chegou a mantê-la por dez dias,  e Dom Genaro  por quinze, isto  quando o normal era quatro ou cinco. Com eles, matei e comi várias pessoas. Mas mas algumas, como Josefa e Benita, e seus filhos, matei e comi sozinho.”  Certamente, nos dias de hoje, nada se sabe a respeito de tais comparsas.

O advogado de Romasanta tentou convencer o tribunal que seu cliente  era um psicótico, um louco, um ser que acreditava ser um homem-lobo. E tudo isso um resultado de uma má-educação e de  um meio repleto de  grotescos contos populares e rudes crendices. Os assassinatos de Romasanta foram tão brutais que parecia que um lobo tinha devorado as vítimas. Nesta tese se apoiou Jacinto Paz, o advogado do acusado, chegando a dizer que era impossível que seu cliente houvesse realizado estes crimes. Para outros, era uma evidência de que era ele um homem-lobo de verdade. Romasanta chegou a confessar treze homicídios.  Ao assassinato das mulheres acresceu os de Vicente Fernández, Manuel Ferreiro e duas pessoas mais.  Também confessou outros intentos que restaram frustrados.

Jacinto Paz perdeu a batalha. Em 6 de Abril de 1853, o homem-lobo galego foi condenado a morrer no garrote vil pelo assassinato de nove pessoas, embora tivesse confessado o assassínio de treze.

Mas Jacinto Paz não perdeu a guerra.  De fato, ganhou a guerra pela vida de seu defendido. A rainha Isabel II, através do Ministro da Graça e Justiça da época, recebeu uma carta enviada de Argel e remetida por um certo professor Philips, um hipnotizador francês.  Nesta carta, solicitava  o adiamento da sentença para poder estudar Romasanta, cujo processo havia acompanhado pelos jornais.  O francês estava convencido de que Romasanta não controlava os seus atos, que não era capaz de distinguir o bem do mal, e que sofria de uma mono-mania, conhecida por médicos antigos, chamada licantropia.  E,  para fortalecer as suas palavras, argumentou que iriam executar um lunático aos olhos do mundo.  O que desejava o francês era hipnotizar Romasanta para verificar o seu diagnóstico.

Isabel II revogou, em 24 de Julho de 1853, a sentença de morte pro-latada contra Romasanta, comutando-a por prisão perpétua.  A partir daqui, o final de Romasanta é um completo mistério, repleto de suposições: chegou-se a dizer que ele cometera suicídio ou que morrera de velhice no cárcere… mas, realmente, ninguém sabe a verdade.

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