O Guia Da Luz

A lenda da tomada de Faro aos Mouros

Parte das forças que atacaram o Castelo de Faro fora colocada no largo actualmente chamado de S. Francisco, e estas forças eram comandadas por um brioso oficial, robusto e formoso rapaz, solteiro. Este oficial pôde ver em certa ocasião a formosa e gentil filha do governador mouro e dela ficou enamorado. […] Em certo dia conseguiu o oficial que a sua namorada o recebesse em curto rendez-vous dentro do castelo, combinando-se que o mouro intermediário lhe abrisse, alta noite, a porta, hoje da Senhora do Repouso. […] À hora marcada entrou o oficial no castelo e aí em doce colóquio se entreteve com a dama dos seus encantos. À hora de sair, acompanhou ela o seu querido namorado até à porta do castelo, levando consigo um irmão, criança de oito anos. Quando se aproximaram da porta, disse-lhes o escravo, que da parte de fora estava muita gente, pois que mais de uma vez lhes chegavam aos ouvidos vozes abafadas. [..] O oficial, segurando nos braços a moura gentil, viu-se em eminente perigo. Avançou para fora com a moura e, quase ao transpôr a porta, hoje conhecida pela Senhora do Repouso, notou que tinha nos braços não uma formosa jovem, mas apenas uns farrapos, que se desfaziam à mais pequena e leve aragem. Olhou para o lado pela criancinha e não a viu. Então teve a profunda e tristíssima compreensão da sua desgraça. Caiu no chão sem sentidos. […] Nesse momento acudiram as forças do Mestre e de D. João de Aboim e os mouros tinham sido forçados a entregar o castelo, mediante uma avença com o Rei D. Afonso. O oficial […] dirigiu-se à porta do castelo. Ao entrar pelo Arco da Senhora do Repouso viu ao lado esquerdo a cabeça de uma criança que se assomava por um buraco. – O que fazes aí, menino? perguntou o oficial, conhecendo o irmão da sua namorada. – Estamos aqui encantados: eu e a minha irmã. – Quem vos encantou? – O nosso pai. Soube por uma espia que levavas nos braços a minha irmã acompanhada por mim e, invocando Allah, encantou-nos aqui no momento em que transpunhas a porta. Por atraiçoarmos a santa causa do nosso Allah aqui ficaremos encantados. – Por muito tempo? -Enquanto o mundo for mundo.

A Lenda de Abidis

Outrora existia junto do rio Tejo um reino verdejante e florido. Nas suas florestas havia muitos animais. Os habitantes eram lavradores e caçadores que amavam a Natureza. O rei Gorgoris recebeu dos deuses o segredo de fazer o mel. Foi Gorgoris quem ensinou esse segredo às abelhas. Por isso era conhecido no seu reino e até em países longínquos pela alcunha de Melícola. Gorgoris tinha uma filha única, a bela princesa Capipso que adorava passear nas areias doiradas das praias do Tejo. Certo dia, chegou ao cais de Melícola o navio do grego Ulisses que vinha abastecer-se de comida e água e, também, comprar o famoso mel daquela região. O herói grego desembarcou para falar com o rei, mas encontrou Calipso e logo se apaixonaram e, esquecidos de tudo, ficaram dias e dias gozando as delícias daquele país de sol e floridos campos e frondosas florestas. Os caçadores viram os namorados e foram contar ao rei Gorgoris. Furioso, o rei ameaçou de morte o estrangeiro Ulisses porque não queria que a filha gostasse dele. Ulisses fugiu, às escondidas, numa noite escura. E a pobre princesa ficou abandonada e à espera de, em breve, ter um bébé… A criança nasceu linda como um anjo. Num braço tinha marcada a vermelho uma flor que a princesa beijou, com muita ternura.-Ábidis, assim te chamarás!. Melícola mandou pôr o bébé num cesto e lançar o cesto ao rio. O cesto ficou encalhado numa praia do Tejo. Vieram as corças beber ao rio. Uma aproximou-se do cesto. Puxou-o e deu de mamar a Ábidis. O Príncipe foi criado pelos animais do bosque. Vinte anos depois, o rei Gorgoris estava à morte. Cheio de desgostos, porque não tinha nenhum filho, nem nenhum neto para herdar o reino. Os caçadores falaram-lhe de um jovem, belo e forte, que andava com os animais pelas florestas dos montes e dos vales. O rei ordenou que o trouxessem à sua presença. Armaram-lhe uma ratoeira e apanharam Ábidis. Logo que o viu, a pobre Calipso, que estava muito doente, reconheceu-o pelo sinal no braço. Gorgoris pediu perdão à filha e ao neto e fê-lo seu herdeiro. Ábidis governou muitos e muitos anos com justiça e sabedoria. Nos montes, onde foi criado pela corça, mandou construir uma cidade e chamou-lhe Esca Ábidis, que significa as delícias de Ábidis

A lenda de Santa Maria

A lenda de Santa Maria de Afonnso X, conta um milagre que ocorreu em Faro durante o tempo do domínio muçulmano. A imagem da Virgem Maria estava colocada nas muralhas, devido à importância da comunidade cristã que residia na cidade de Santa Maria de Faro. Um dia, depois de algumas escaramuças entre cristãos e muçulmanos, este últimos resolveram retirar a imagem da Virgem Maria das muralhas e atirá-la ao mar. A partir dessa data, sempre que iam à pesca, as redes dos pescadores vinham vazias. Os muçulmanos perceberam que isso era um castigo por terem atirado a imagem da Virgem ao mar e resolveram ir buscá-la e recolocá-la no lugar de origem. Como recompensa, os peixes reapareceram em maior abundância, como não tinha acontecido até então.

A Lenda do Arrepiado

Recortada contra o azul do céu, a silhueta imponente do Castelo de Almourol, evoca um passado povoado de personagens lendárias, de guerreiros e de heróis, de mouras encantadas e misteriosas donzelas. Todo um imaginário de sonho vivificando de imaginário a História e a Cultura das populações vizinhas do milenar castelo. A imponente construção medieval ergue-se na pequena, mas agreste e solitária, ilha de Almourol no meio do formoso e vasto Tejo, ali engrossado pelas águas do luso Zêzere. Das suas elevadas torres avista-se uma paisagem deslumbrante. Perto, prende-nos a atenção a risonha e mourisca povoação do Arripiado. O seu nome remete para uma lenda a que não falta nenhum dos ingredientes requeridos pela arte narrativa do povo de riba Tejo: cavaleiros sedutores e jovens de divina formosura vivem amores ora contrariados ora bem conseguidos. E tudo acontece naquele lugar privilegiado pela natureza, um lugar disputado pelos homens e pelos deuses: a surpreendente ilha de rochas reluzentes destacadas do areão de seixos doirados. Ilha verde e ocre, sombreada de frescos salgueirais e de copados sobreiros e azinheiras. Quando um frémito de aragem percorre a ramaria, a moldura esmeraldina reflecte-se no espelho mágico do rio. Pescadores e homens serranos navegam as águas profundas e descansam nas aprazíveis praias do Tejo. Casario branqueja nas encostas marginais do grande rio. As povações do Arripiado, do concelho da Chamusca, e logo além Tancos, do concelho de Vila Nova da Barquinha, apresentam aos olhos do viajante as marcas de um Passado que se desdobra também na aventurosa gesta de desbravar a terra e o rio e as matas. Povoações que testemunham a luta quotidiana, vivida ao longo dos tempos, por povos de dferentes civilizações. Almourol, a pitoresca ilha tagana, era já um castro romano na Era de César. Na decadência do Império Romano, a arruinada fortaleza foi convento e ermitério. A situação estratégica determinou o oscilar da sua posse por senhores de exércitos, por nobres poderosos. No periodo de declinio da dominação muçulmana, algumas épocas de agitação seguem-se a tempos de pacifica convivência entre moçárabes e os cristãos descendentes dos godos. Em Almourol vivia-se ao sabor de algaras mouriscas e de fossados dos cavaleiros cristãos que acompanhavam os cruzados nas lutas pela Reconquista. Reza a tradição que, no século X, a ilha tinha sido conquistada pelo temido Ibne Baqui, filho do lendário Xurumbaque. Este era um Mouro dotado de forças superiores. Feito prisioneiro pelos nórdicos da Normandia, logrou escapar-se-lhes. Conheceu palmo a palmo a região galega e, mais tarde, as terras taganas. Era já muito velho, quando decidiu marcar os seus dominios e instalar-se, em recônditos e inacessiveis lugares, entre serranias e rios profundos, numa região da antiga Lusitania, entre Coimbra e Santarém. A ilha de Al Mourol foi reforçada e dotada de uma zona de residência e de lazeres. Uma luxuosa alcaçaba, onde Ibne Baqui dividia o seu tempo entre aventuras guerreiras e os prazeres da música e da poesia. Al Mourol era um luger de paz e de recolhimento e uma atalaia vigilante. O poderoso muçulmano amava muito a sua mulher, a doce Fata, da tribo de Micnesa. Ambos se orgulhavam de sue filha Ari, uma jovem de rara beleza e invulgar talento. Os seus cânticos dulcificavam o coração dos guerreiros de Alá . A sua elegância e arte de bailarina eram afamados em todo Al Andaluz. De Beja, por uma madrugada de Maio, chegou uma luzida embaixada. Logo, Ibne Baqui mandou que todos os barqueiros e pescadores do rio se preparassem para acolher e transportar para Al Mourol o seu amado e velho irmão e toda a luzida comitiva que de tão longe viera visitá-lo. Ibne Xurami, senhor de imensa fortuna e invencível poderio militar, ouvira falar de Ari. Por ela, se decidira a vir negociar um casamento que haveria de reforçar ainda mais os descendentes do heróico Xurumbaque. A doce Ari veio a saber pelo zum-zum das belas mulheres do Pátio das Estrelas o que estava a acontecer. Uma nuvem negra parecia-lhe pairar sobre a sua juventude. Desde menina que ela amava Mem Roderico, moçárabe influente, mensageiro da paz em muitas questões e rivalidades entre mouros e cristãos. Também ele amava perdidamente a formosa Ari. Esperavam ocasião asada para convencerem os pais de ambos a permitirem o seu casamento. Depois de um longo serão de festejos, Ari esperou que o pai e a mãe se dirigissem para os seus aposentos e pediu-lhes para a ouvirem. Confiada no amor dos seus progenitores, Ari confessou-lhes o seu romance com Mem Roderico. E, rojando-se no lajedo, jurou-lhes que não suportaria nunca casar-se com o velho tio. Irado, Ibne Baqui mandou que metessem a filha na mais alta torre da fortaleza. E, para que não tentasse fugir, dizem as pessoas antigas, que “Piaram-a, isto é, ataram-na pelos pés como se fazia às cavalgaduras ruins de amansar. Ari peada, morria de saudade e paixão. Certo dia, por uma estreita fresta, entrou uma pomba branca que trazia presa a um laço no pé uma mensagem. Era a notícia de que o seu amado Mem Roderico tinha sido morto numa cilada pelos soldados de Ibne Baqui. Nesse mesmo instante a alma pura da infeliz Ari deixou o seu formoso corpo. Ari peada voou no corpo da pomba branca e foi poisar na campa de Roderico, lá em baixo, frente ao Tejo, no branco cemitério da povação que o povo passou a chamar de Aripeada, a branca e bela povação do Arripiado.

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